No sul do país, concretamente no Algarve, os empresários da hotelaria, a restauração e comércio em geral, assim como os particulares que alugam casas de veraneio às quinzenas, berram que não se vende e que os quartos e as casas ficaram por ocupar numa percentagem alarmantemente alta. A fazer fé no que ouvi na TV e nos lamentos que escutei “in loco”, a crise está instalada no sul do país e, inclusive, é maior que a do ano anterior. Nem o Euro2004 salvou a situação.
A crise é global mas as diferentes economias ressentem-se de maneira diferente perante situações similares, devido às infra-estruturas onde assenta a sua economia e às políticas que seguem os seus governos e o mundo empresarial.
Em vésperas do Euro2004 foi largamente noticiado que os preços na hotelaria e restauração deveriam sofrer aumentos na casa dos vinte cinco por cento. Era “normal” este acréscimo de preços, diziam alguns empresários, perante a envergadura do acontecimento desportivo e a procura que iria suscitar e, portanto, havia que tirar o melhor proveito dele.
Se, a nível desportivo e organizativo, o evento foi um êxito - nas palavras de dirigentes internacionais -, o mesmo não parece ter-se verificado em termos turísticos, nomeadamente na vertente hoteleira e da restauração, ainda que o saldo esteja longe de ser negativo.
Contudo isso são acontecimentos que já lá vão e agora, em plena época estival, os problemas do turismo deram à costa. O Algarve passou às primeiras páginas clamando por turistas e por receitas perante a fraca ocupação de camas em resultado do decréscimo de visitas, especialmente as oriundas do Reino Unido e Alemanha.
Sem entrar em polémicas de política económica, da qual não sou especialista, todos devem saber que o mundo, e a Europa em particular, se encontra em recessão ou no limiar da mesma e que a recuperação é ainda muito ténue – alguns advertem mesmo que esta é ainda uma miragem. Em termos simples, os europeus andam com falta de dinheiro, ainda que cá no nosso burgo o problema seja muito mais grave. Ora, perante a crise, a solução é simples: ou se riscam as férias no estrangeiro ou se arranja uma opção mais barata.
Como esta recessão não é de hoje nem de ontem, os nossos empresários deveriam estar precavidos contra este problema. Mas tal não aconteceu! De que é que estavam à espera? De algum milagre?
Ainda por cima, o nosso vizinho espanhol é um fortíssimo concorrente e a Espanha é o destino de milhões de veraneantes, inclusive já merecendo as preferências de largos milhares de portugueses.
Há alguns anos atrás, traçou-se como meta para a industria turística algarvia a aposta no turismo de qualidade. O resto não interessava nada, diziam os “entendidos”.
Esta opção não foi acompanhada dos necessários investimentos em acessos rodoviários locais, saneamento básico e outras infra-estruturas base, equipamentos balneares e todo o equipamento necessário ao turismo de qualidade. A simples limpeza das zonas balneares e circundantes deixava e deixa muito a desejar, já para não dizer que, nalgumas famosas praias algarvias, o areal tem uma concentração de pontas de cigarro e outras imundices que evidencia manifesta falta de limpeza. Assim onde iria assentar o turismo de qualidade? Nalgumas unidades hoteleiras? Apenas nas “Quintas do Lago”? E o resto das terras e praias algarvias eram o quê?
Algum tempo depois, em ano de forte queda de fluxos turísticos exteriores, os empresários foram obrigados a virar-se para os potenciais turistas nacionais. É assim neste país: quando a teta da vaca seca procura-se a da cabra. A aposta destes empresários está virada para o dinheiro chorudo das fortes economias estrangeiras mas, na falta deste, que remédio senão contentarem-se com os tostões do turismo nacional!...
Este ano a história parece repetir-se. Mas os tostões nacionais já tiveram melhores dias e não fosse a fama das delícias – ou pretensas delícias - de umas férias em terras do Al-Gharb, que faz as pessoas fazerem grandes sacrifícios para as puderam gozar, a crise estava definitivamente implantada nesta zona balnear do país.
A política turística em terras do Al-Gharb parece caminhar ao sabor do vento: entre a calmaria das suaves noites estivais, passando pelos fortes sopros das marés vivas de Setembro ou rodopiando entre os “vendavais” que periodicamente se abatem sobre o sul de Portugal.
A continuar assim não vamos lá e, no entanto, o modelo sustentável, que nos deveria servir de exemplo, está aqui bem perto. Refiro-me a Espanha.....
Pois é, ainda há quem acredite em milagres... Vmar, magnifico texto, concordo com cada uma das tuas palavras, disseste tudo... Beijinhos um dia muito feliz!
Afixado por: Maria Branco em agosto 5, 2004 09:51 AMO Algarve foi sempre expeculativo do ponto de vista de destino de férias, sobretudo balneares não é um problema de hoje há trinta e dois anos quando o conheci já assim era. Eles só estão a ser vítima de sí próprios são demasiado gulosos e independentemente do facto de se estar a viver um periodo de grave recessão, ainda há muita gente que consegue e vai para férias, mas é como o Victor diz, para destinos muito mais agradáveis e muito mais acessíveis.
Afixado por: congeminações em agosto 5, 2004 12:48 PMO La Vanguardia de ontem falava dos mesmos problemas em Barcelona. Parece que há excesso de hotéis, parece que as pessoas 'já não vão em febres', parece que esperam pelos saldos... parece que há outros destinos com mais sol, com muita água e exotismo... e mais baratos.
Afixado por: Planície Heróica em agosto 5, 2004 09:10 PMComo dizes é fácil aprenderem - basta atravessarem o Guadiana e ir ao sul de Espanha ver o que os nossos vizinhos lá fazem. Turismo de boa qualidade e com preços para diversas bolsas. Nem só para ricos, nem só para pés descalços... cá, querem explorar tudo logo de uma vez - toca de preços altissimos. Não dá porque o pessoal nã tem cheta - saldos para os holigans ingleses passarem férias e, vá lá, tenta-se tratar um pouco melhor o turista portuga. Nunca mais lá vão assim. Está tudo mal.
Afixado por: ognid em agosto 5, 2004 10:54 PMQuem tudo quer, tudo acaba por perder.
A crise económica está instalada na velha Europa, não há retoma nenhuma e no turismo quem durante os próximos anos virá a beneficiar, com esta fraqueza, serão certamente os Países “calmos” recém chegados à CE, com muito por “jogar” e ganhar.
Pessoalmente o Algarve nunca me atraiu, sempre o encarei como uma terra para estrangeiros, por isso, não é ainda desta, que irão contar com a minha ajuda.